
Durante os dois anos que vivi na capital minha rotina por lá foi sempre muito pacata. Todos os dias a mesma cena se repetia: Da casa para o trabalho, do trabalho para casa. Morava sozinha e com esta experiência aprendi muitas coisas e abri a mente para muitas outras. Ok, isso me torna uma garota moderna; Com tantas modernidades assim, me inspirei a contar uma história verídica. Com vocês, mais uma da série:
"Aconteceu Comigo".
No meu local de trabalho, tive uma colega-amiga-irmã que vou chamar de "Ana", para preservar a identidade, a integridade e a conduta da minha amiga. Ana estava prestes a se mudar, iria para um apartamento maior, estava animada. A mudança seria no próximo sábado e o pai dela ajudaria na mudança e na função toda. Quinta-feira, final do expediente sinto que Ana tem alguma coisa para me dizer, pressentimento, sabe? Pois é.
-Ei Ana, que que foi?
-Nada não... - Conhecendo Ana do jeito que eu conhecia, retruquei:
-Tá, agora me responde com a verdade, sua boba.
-Tá bem, vai. É o Geraldo...
Puta que pariu, como assim "Geraldo"? Quem era esse cara agora? Somos colegas-amigas-irmãs e Ana não me contou nada que namorava?
-Errr... Q-u-e-m é Geraldo, Ana? - Perguntei, com um olhar de aniquilação.
-Há! Não acredito que não te falei sobre ele ainda...
Cara, que sacanagem! Sempre contei tudo pra ela...Como assim que ela não me falou sobre o tal do Geraldo? Tô passada.
-Ana, tu não me falou nada sobre Geraldo nenhum.
Ana começa a rir sem parar, fazendo com que eu entendesse menos ainda o que estava acontecendo...
-Um pinto. Pronto, é isso. Eu tenho um pinto e eu chamo ele de Geraldo.
Quase tendo um AVC, penso cá com meus botões... Oquê? Coméquié? Seria Ana então uma farsa? Quer dizer que Ana tinha um pinto esse tempo todo e eu não sabia? Quer dizer que nos dias que Ana dormia lá em casa e me via de calcinha pra lá e pra cá.... Deus, não creio!
Ou entendi tudo errado e Ana é granjeira, tem uma criação de pintos e não me contou?
-Ana, perai... Explica isso melhor, vai.
-Li, aloou... Um pinto, oras. Famoso 'consolo', saca? Alavanca-de-arquimedes, pingola, pirulito... Como preferir. - Disse Ana, com sua sabedoria de garota da capital.
-Háá simmmmm, entendi sim. - Suspirei aliviada.
-O problema é que ele é enorme...
-Qual o problema com o tamanho dele?
-Onde vou esconder o pinto no dia da mudança? Ó a situação: Mudança, bagunça por todo canto, eu, meu pai... E o pinto solto pela casa. Não, não... não dá! Tu tem que me ajudar!
-Háá não! Não mesmo! Tu não tá pensando em...
-Tô sim! -Respondeu Ana, interrompendo o que eu dizia e fazendo cara de gato de botas do Sherek.
-Por favor, Li... quebra essa vai? Fica com o pinto só por uns dias.
Como assim fica com o pinto só por uns dias? Meus Deus a vida na capital era mesmo muito estranha... Quando imaginei que ao invés de sair pra conhecer alguém, levaria um pinto pra passar uns dias na minha casa?!
-Tá legal Ana, me deve essa hein! Eu levo o pinto.
-Sério Li?? Ai que bom! - Disse Ana, saltitante, enquanto que eu, de braços cruzados fazia carinha de braba com um leve sorriso de 'canto de boca'.
Dia seguinte, Ana, muito chique e bem arrumada como sempre, aparece com uma sacola do Boticário com um volume estranho e suspeito, envolvido por um tecido preto de bolinhas brancas.
-Tá aqui, esconde ele, rapidinho, rapidinho.
-Ana, não achei que fosse um muçum. Não cabe na minha bolsa, vou ter que levar nessa sacola mesmo. Perai, que mais tem aí dentro? Ei, ei, ei... tô conhecendo esse tecid... Eiiiiii, minha blusa!
-Há, sim é blusinha que tu me emprestou o dia que dormi na tua casa.
-E tu enrolou o pinto na minha blusa?
-Hahaha... Relaxa, ele tá limpinho.
Lanço um olhar fulminante, querendo trucidar Ana. Mas tudo bem, ela sempre foi gente boa comigo.
E lá vou eu pegar o busão para ir embora naquela tarde de sexta. Digo, o pinto e eu. A sensação que eu tinha era de que todos sabiam o que eu carregava naquela sacola, parecia que o mundo inteiro sabia que ali dentro tava o pinto da Ana. E se alguém identificasse que o que eu tinha ali, era uma anaconda? E se eu fosse assaltada, meu Deus?
-É um assalto, branquela... Passa a sacola!
-Não moço, perai, olha só, aí nessa sacola tem um p...
-Passa a sacola eu falei, porra!
-Hummm... Ora, Ora, safadinha, hein?
Arrrrrrggggh... não, não, isso seria o fim dos tempos. Não sei se seria pior ser assaltada ou passar mal na rua, desmaiar, sei lá. Pra quem leva um pinto pra passar uns dias em casa, o que era desmaiar na rua?
-Ajudem, ajudem... alguém ajuda a socorrer a moça!
-Ei, ela carrega uma sacola!Abram, abram... deve ter algum documento!
-Vejam se tem algum documento na sacola, para identificarmos a moça!
-Misericórdia, sangue de Jesus... é uma tarada!!!!
Subindo o elevador do prédio onde eu morava, respirei aliviada: O pinto chegou
'são e salvo', assim como eu também. Tentando me acostumar com a idéia do meu hóspede temporário, mostrei à Geraldo o seu novo lar pelos próximos dias e o deixei dentro do meu guarda-roupa, próximo dos meus perfumes, cremes e bijouterias. Geraldo estava faceiro, de uma rélis sacola do Boticário envolvido por uma blusa preta de bolinhas, ele agora estava no 5° andar de um prédio da capital.
Na correria do dia-dia e na vida cronometrada que eu levava, fazia tudo tão automaticamente que apesar de abrir todos os dias o meu guarda-roupa, nem percebia mais a presença de Geraldo ali parado, sempre me olhando. Que saber? Já tinha até acostumado. Aquilo virou uma rotina que eu nem me dava mais por conta de que o pinto tava ali.
- Será que eu estava me acostumando com a presença de Geraldo? - Bem, não importa.
-Alô, filha?
-Mãããe! Que saudade! Que dia tu vem?
-Tô chegando amanhã!
-Haaaaa que bom!
Arrumei a casa toda e fui no mercado comprar algumas delicinhas para esperar a minha mãe.
-Trrrrrrrrrrimmm - Tocou o interfone, era minha mãe. Matamos a saudade, conversamos bastante, risada daqui, risada dali...
-Nossa, mas que delícia esse teu perfume, filha. Qual é nome dele?
-Há, sabia que tu ia gostar! Bom, né? Esse é o.. Tsc, tsc, não lembro o nome...Perai que vou olhar o nome dele, tenho ele ali no guarda-roupa.
Abro o guarda-roupa tranquilamente, sem lembrar que o pinto tava bem ali do lado do meu perfume, feito um dois de paus. Foi tudo muito rápido, percebo que minha mãe mudou a expressão do rosto, quando mais rápido ainda, fechei as duas portas do guarda-roupa e virei de costas com as mãos estendidas sobre o guarda-roupa, com um sorriso amarelo tentando disfarçar que o meu coração tava tentando sair pela boca.
-Ei, filha, que que foi? O que tem ali dentro, posso saber?
-ahah... hahahaha - Tento fingir que nada estava acontecendo.
-Mãããããe, olha lá! Abriu sol, vamos caminhar? Vamooos, vem. - Disse à ela, ao mesmo tempo que a induzia a sair dali, tocando o seu ombro.
-Errr... O guarda-roupa. O que tem dentro do guarda-roupa? - Disse minha mãe, aproximando-se cada vez mais daquelas portas.
...Putz, já era, ela abriu o guarda-roupa. Cara, que vergonha! Era a minha mãe! Sabe o que é ver sua imagem de garota-virgem ir pras cucuias? Tá, tudo bem que o pinto não era meu, mas até provar que focinho de porco não é tomada...
-Não sabia que você tinha um p...
Não é meu! - Interrompi.
-O pinto não é meu. -Nesse momento eu só pensava que na cabeça da minha mãe passava
"é o que todas dizem..."
-Ha tá, vai me dizer que é emprestado então?
-É...! Quer dizer, não é! Ele tá só passando uns dias aqui. - Respondi, mesmo sabendo que as chances dela acreditar no que eu dizia, eram quase nulas, afinal, eu já imaginava o que tava passando na cabeça dela: "Ora, ora... a velha desculpa de que não é seu."
-Me conta isso direito...
-Tá bem mãe, vou te contar. É uma looooonga história...
Moral da História: Não tire o de ninguém da reta, sem antes saber quais as possibilidades de deixar o seu na reta (sem trocadilhos) por quebrar o galho de algum amigo seu.